Dom Palocci

Dom Palocci. Agora são os “cês” repetidos e não os elles, mas convém ter cuidado. Talvez redobrado. Pois Dom Palocci – o multiplicador – nos traz de volta a expressão já um pouco esquecida. Ele foi blindado. Não, não estamos protegidos dele como seria desejável. Ele continua ministro da casa civil, seja lá o que isto signifique.

Dom Palocci é aquele moço que parecia um santo a comandar as finanças do país, fazendo-nos acreditar que zelava pelo patrimônio nacional, domando o já domado dragão inflacionário. Depois ficou famoso também pela quebra do sigilo bancário de um caseiro que, ao contrário do que agora ocorre, explicou a origem de seu modesto patrimônio.

Pois Dom Palocci volta agora ao noticiário, não por força das medidas que propõe ou executa na chefia do ministério, mas pela divulgação de que seu patrimônio, durante a última legislatura em que atuou como deputado, foi multiplicado por nada mais, nada menos, do que vinte vezes. Ele não nega. Alega ter prestado serviços de consultoria, mas não pode declinar os nomes dos clientes. Uau! Que trabalhos tão secretos, estratégicos e inconfessáveis terão sido prestados. Certamente que nenhuma relação deve ter havido com o orçamento federal ou com as votações do congresso nacional.

Só mesmo blindando o ministro.

A blindagem foi feita com metáforas, conveniências e, pelo que fala o Estadão, alguma truculência, já que houve um bloqueio das comissões parlamentares. Esta assim chamada blindagem tem o objetivo de proteger o nobre ministro da verdade. Não, não é que ele não possa ouvir a verdade, ao contrário, ele precisaria falar a verdade. Mas, blindado, não consegue, fica impedido. No sentido contrário, não pode ouvir os apelos por explicações.

Mas se engana quem achar que esta blindagem toda é algum tipo de solidariedade ao ministro. Como se diz, o ministro não está com esta bola toda. Temos aí mais um belíssimo exemplo de aproveitamento de oportunidades. A blindagem ora oferecida a Dom Palloci, ops, Palocci, vem bem a calhar, por estabelecer parâmetros úteis à situação e à oposição, para hoje e para o futuro e o futuro, todos sabem, a Deus pertence. Nunca se sabe de que lado se estará na próxima legislatura e é sempre bom ter o patrimônio garantido. Afinal, o patrimônio dos parlamentares – ressalvadas as exceções de praxe – foi duramente conquistado com o suor do povo que faz sacrifícios para pagar os merecidos honorários na esperança inútil de que, tão bem remunerados, possam dedicar algum tempo às questões que tanto afligem os eleitores.

Como se vê, não. A despeito do arrimo oferecido pelo povo, a busca pelo acréscimo patrimonial é incansável.

Pois então, a partir de hoje, fica estabelecido que um parlamentar pode multiplicar por vinte o patrimônio durante o mandato sem qualquer questionamento. Ninguém mais há de reclamar pois está estabelecida a jurisprudência. Bem, se algum gaiato insistir, receberá uma enxurrada de “deixas disso” e terá que ouvir que todos têm o direito de prestar consultoria sem declinar os nomes dos clientes, enquanto desfruta o mandato conferido pelo povo. Não há lei que proíba e nem mesmo tem sentido um parlamentar abdicar de seus dotes intelectuais guardando para si o conhecimento – e as informações – que pode dividir com seus operosos clientes. Seria mesmo muito egoísmo, o que não combina com o altruísmo presumido de quem deixa tudo e se muda para Brasília para defender os interesses do seu eleitorado. Se lá – melhor dizer aqui, posto que escrevo de Brasília – estão, é graças ao povo que os elegeu.

Este povo também, convenhamos, faz cada coisa.

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